Memorial Judaico

Memorial Judaico

O Memorial Judaico de Vassouras foi originalmente criado para lembrar Benjamin Benatar e Morluf Levy, dois judeus de origem marroquina enterrados no jardim do antigo casarão da Santa Casa de Misericórdia, em 1859 e 1878. Naquela época, ainda não havia no Brasil cemitérios judaicos reconhecidos pelo Estado.

Inaugurado parcialmente em agosto de 1992 e concluído em 1994, o memorial foi construído por iniciativa de um grupo formado por membros da comunidade judaica do Rio de Janeiro (Frieda e Egon Wolff, Alberto Salama, José Kogut e Luiz Benyosef) e da cidade de Vassouras (Azuil Lasneaux, Severino Sombra de Albuquerque e Severino Dias, então prefeito). Após reformas, o sítio encontra-se hoje localizado na área externa do Museu Vassouras, tendo Luiz Benyosef como seu presidente. 

Concebido gentilmente pelo paisagista Roberto Burle Marx, o Memorial Judaico é composto por nove canteiros em forma octogonal preenchidos por sete ciprestes e por três pedras tumulares, de Benjamin Benatar, Morluf Levy e Egon Wolff, que ocupam o canteiro central. Segundo Burle Marx, o octógono seria semelhante à forma de um casulo, casa de abelhas, para simbolizar nossa condição humana: ao final da vida tendemos a retornar para nossas casas ou moradas. 

Não por acaso, tendo Burle Marx deixado um dos nove canteiros-casulo vazio, o memorial deixa um espaço livre onde cada um pode se sentir incluído, simbolizando assim a “casa de todos nós”. Desse modo, o espaço convida todas as pessoas à imaginação de um futuro mais inclusivo, tolerante e justo.

Ao reconhecer que o passado está sempre presente e que a memória é um campo em construção, o Memorial Judaico tem como princípio a responsabilidade ética diante da História. Assim, valorizando os cacos da história, com “h” minúsculo, e as vidas anônimas, ordinárias, de pessoas comuns, o memorial é um chamado à reflexão sobre como herdamos, escutamos, transmitimos — ou silenciamos — as histórias, pessoais e coletivas, que nos constituem. 

Na lápide de Morluf Levy (também denominado em documentos de época como Miguel ou Michel), assim fora escrito em hebraico por algum sábio rabino guiado pelos ensinamentos da Torá, o Antigo Testamento: “Estrangeiro fui em terra estranha”. 

Fazendo dessas palavras fonte de inspiração, o Memorial Judaico reforça o compromisso do Museu Vassouras com a preservação da memória e da história do território do Vale do Café, lembrando e reconhecendo a diversidade de povos e comunidades que passaram por este território: pessoas indígenas, africanas e afrodescendentes, judeus, cristãos-novos e migrantes de diferentes origens, em seus distintos modos de viver, sobreviver, resistir e deixar suas marcas neste lugar.

Benjamin Benatar, Morluf Levy e Egon Wolff

Benjamin Benatar [1809-1859]

Benjamin Benatar nasceu em 1809 em Gibraltar, então pertencente ao Marrocos espanhol, chegando ao Brasil em 1829, aos 20 anos. Após alguns anos na Bahia e no Rio de Janeiro, então Corte Imperial, fixou-se em 1838 em Vassouras, onde dedicou-se a atividades comerciais. Dois anos depois, casou-se com a paulista Brites Maria da Costa Gavião, com quem teve oito filhos. O casal participa ativamente da vida social de Vassouras, batizando sua prole na Igreja católica e convidando os principais membros da sociedade vassourense para serem padrinhos e madrinhas de seus filhos. Benatar torna-se um próspero negociante da Vila de Vassouras, elevada à cidade em 1857, passando de proprietário de botequim e venda de “secos e molhados” a dono de hospedaria e salão de baile frequentado pela elite local. 

No entanto, sua história ficou conhecida não apenas pelos negócios desenvolvidos na cidade por quase duas décadas, mas porque, em seu leito de morte, aos 50 anos, Benatar recusa a extrema-unção e expressa sua última vontade: morrer como judeu. Porém, como o único cemitério da cidade é cristão, a família solicita uma sepultura eclesiástica. Para resolver o caso inusitado, a Igreja monta um tribunal cujo processo, após dez dias de audiências ouvindo testemunhas, nega o pedido de sepultura. A viúva de Benatar recorre então à Irmandade da Santa Casa de Misericórdia, composta por seus compadres, que por fim oferece à família o jardim da instituição hospitalar. Considerado pelo jornal Correio Mercantil como um “estrangeiro laborioso e útil”, Benatar é ali sepultado em abril de 1859.

Morluf Levy [?-1878]

Morluf Levy, também conhecido em documentos de época como Miguel, faleceu em 3 de março de 1878 e foi enterrado no jardim da Santa Casa de Misericórdia, de acordo com o precedente aberto por Benjamin Benatar. Sua lápide, encontrada em boas condições, fora escrita em hebraico e espanhol, segundo a tradição dos judeus sefarditas, provenientes da Península Ibérica e Norte da África. Conforme nota em um jornal da época, Levy foi vítima de febre biliosa e deixou em Vassouras alguns irmãos, entre os quais o negociante Abrahão ou Abraham Levy, dono da loja “A Barateza”. Após a morte de Levy, a família divulgou uma nota de pesar em espanhol e, dois meses mais tarde, no mesmo jornal O Município, seus irmãos Jaime e Salvador Levy publicaram outra nota, agora de despedida da cidade de Vassouras: eles retornarão para Gibraltar.

Egon Wolff [1910-1991]

Egon Wolff nasceu em 28 de julho de 1910 em Budsin, cidade então pertencente à Alemanha, mas integrada à Polônia após a Primeira Guerra Mundial. Filho caçula de Nathan e Dorothea Wolff, cresceu em uma pequena comunidade judaica conservadora. Em 1930, ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de Berlim, onde conheceu Frieda (Paliwoda) Wolff, jovem berlinense, também judia, que se tornaria sua esposa e companheira por toda a vida. Na época, Frieda cursava Línguas Estrangeiras na mesma Universidade, uma formação para moças que viriam a ser professoras. Mas, sem contar para a família, trocou de curso e ingressou na Economia Nacional, pois seu sonho era ser jornalista. 

Na Universidade, Egon e Frieda participavam de movimentos estudantis ligados à Associação Acadêmica de História e Literatura Judaica, interesse que marcaria suas vidas e atuação. Em 1933, com a ascensão de Hitler ao poder e a implantação da ditadura nazista, Egon e Frieda começaram a ser perseguidos. Casaram-se em 1934 e em fins de 1935, após diversos planos e tentativas de fuga, conseguiram sair da Alemanha e entrar na França, onde, no porto de Le Havre, embarcaram em um navio com destino ao Brasil. Aqui chegados, instalaram-se em São Paulo entre 1936 e 1948, mudando-se posteriormente para o Rio de Janeiro. Após viverem de tradução, Egon e Frieda estabeleceram uma firma própria de importação de artigos de ótica, da qual se desligaram em 1969. No início de 1970, aos 60 anos, o casal dá início a uma terceira vida, agora integralmente dedicada à pesquisa sobre a presença judaica no Brasil desde o momento da colonização. 

Essa extensa e minuciosa pesquisa em fontes primárias (arquivos públicos nacionais e internacionais, cartórios, cemitérios e lápides) resultou em mais de 40 livros publicados e centenas de artigos, conferências e palestras, todos voltados para o resgate da história judaica brasileira. No final dos anos de 1980, a partir do livro “História de Vassouras” (1935), de Ignácio Raposo, o casal Wolff divulga o fato de haver dois judeus marroquinos enterrados em Vassouras, vindo posteriormente a conhecer o sítio em companhia de Luiz Benyosef. Para preservar a história, os três idealizam aquele que seria o primeiro plano para recuperar o antigo jardim da Santa Casa de Misericórdia, então um asilo, e a pedra tumular de Morluf Levy lá abandonada. Egon, que estava doente na época, veio a falecer em 23 de janeiro de 1991. Em meados desse mesmo ano, Frieda e Benyosef retomam o projeto, criando a Sociedade Amigos do Memorial Judaico de Vassouras, da qual Frieda se torna presidente até o seu falecimento, em 17 de maio de 2008. Em 2005, as cinzas de Egon Wolff são incorporadas ao Memorial Judaico.

Paisagismo Roberto Burle Marx

O projeto do Memorial Judaico foi gentilmente idealizado pelo paisagista Roberto Burle Marx, com apoio da arquiteta Claudia Rosier. Concebido pelo casal Frieda e Egon Wolff e por Luiz Benyosef, aos quais se juntaram Alberto Salama e José Kogut, o Memorial foi originalmente inaugurado em 1992, contando para isso com o apoio da Prefeitura de Vassouras, da Fundação Educacional Severino Sombra, da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Vassouras, do Cemitério Comunal Israelita do Rio de Janeiro e da Federação Israelita do Rio de Janeiro.

No projeto original de Burle Marx, situado no jardim da antiga Santa Casa de Misericórdia, estão presentes as lápides de Benjamin Benatar e Morluf Levy, ali enterrados em 1859 e 1878. A lápide de Benatar, então desaparecida, foi refeita em 1992 a partir de documentos históricos e graças ao apoio do Cemitério Comunal Israelita do Caju, sendo colocada junto à lápide de Levy, essa preservada. Anos depois, em 2005, as cinzas de Egon Wolff, falecido antes da inauguração oficial do Memorial, foram ali depositadas, sendo hoje os únicos restos mortais presentes no terreno, já que os demais nunca foram encontrados.

O Memorial Judaico é composto por nove canteiros em forma octogonal preenchidos por sete ciprestes, plantas ornamentais e pelas pedras tumulares de Benjamin Benatar, Morluf Levy e Egon Wolff, as quais ocupam o canteiro central. Segundo Burle Marx, o octógono seria semelhante à forma de um casulo, casa de abelhas, para simbolizar nossa condição humana: ao final da vida tendemos a retornar para nossas casas ou moradas. Tendo Burle Marx deixado um dos nove canteiros-casulo vazio, onde cada um pode se sentir incluído, o Memorial Judaico de Vassouras representa assim a “casa de todos nós”.

Ficha Técnica

A curadoria do Memorial Judaico é de Ilana Feldman, professora da UFRJ, foi curadora do Museu Judaico de São Paulo, cuja pesquisa aborda testemunho, trauma e políticas da memória na cultura contemporânea.

Biênio 

2025-2026

Presidente
Luiz Benyosef

Presidente de Honra
Frieda Wolff 

1° Vice-Presidente
Anna Bentes Bloch

2° Vice-Presidente
Sofia Debora Levy

Conselho Consultivo
Gerson Horchman 
Ronaldo Cezar Coelho
Wolff Klabin

Para mais informações acesse: http://memorialjudaico.org.br/nossa-historia/